• Eliane Camargo

Eu e a desorganização


Por muito tempo, eu me esforcei para lembrar de momentos da minha infância que pudessem de alguma forma, me caracterizar como uma criança que nasceu organizada. Esse esforço vinha da crença que era impossível ser Personal Organizer sem ter "nascido com esse dom". Uma interpretação disfuncional que eu tive por ouvir de muitas profissionais que desde crianças, elas já gostavam de organizar armários e que sempre foram organizadas com suas coisas. Bem, depois de tanto esforço o que eu realmente constatei é que eu não fui essa criança. Não organizava meu guarda roupa e muito menos os das minhas amiguinhas.


A única coisa que sempre esteve comigo foi o senso de ordem. Desde muito novinha, fui ensinada a não deixar objetos espalhados pela casa para a visita não ter uma má impressão, caso ela chegasse sem avisar. Então após usá-los, abria as portas do meu guarda roupa e socava tudo lá dentro. Quando eu ia passar as férias na casa da minha tia, ela sempre me ensinava uma forma ou outra de guardar cobertores, limpar e guardar os sapatos e separar as louças para facilitar na hora de usar (talvez ela tenha sido a primeira Personal Organizer que conheci). Ao voltar pra casa eu até praticava um ensinamento ou outro, mas socar tudo dentro do guarda roupa e revirar as gavetas ainda me parecia ser o jeito mais fácil de lidar com os meus pertences.


Enquanto eu era criança não havia problema em viver assim, o problema mesmo foi surgindo quando comecei a ficar mais velha e passar por conflitos que de certa forma eram influenciados pela minha desorganização, alguns leves e outros mais sérios. Eis alguns deles: Passar vergonha na academia por entregar o boletim escolar ao invés do atestado médico. Pagar duas vezes pela entrada de um show por levar o ingresso errado. Lotar uma sacolinha plástica com lixo, enquanto assistia aula porque a bolsa estava tão lotada de trecos que não era possível achar a caneta. Encontrar um cartão bancário de uma conta da qual eu nem lembrava que tinha, ir até a agência achando que teria dinheiro na conta e sair de lá com um acordo parcelado porque o saldo estava negativo. Pular o portão por não encontrar as chaves. Bater o carro ao sair de casa atrasada.


Nessas situações há um pouco de desatenção? Um pouco não, muita eu diria. Mas, o ponto é que viver em um ambiente desorganizado faz a gente viver em um mundo paralelo, lá as coisas acontecem em outro ritmo e de um jeito diferente. No momento em que mais precisamos dos nossos pertences, eles aproveitam para brincar de esconde-esconde, às vezes são encontrados logo, outras levam dias. De uma forma muito estranha eles parecem ser uma coisa, mas na hora de usar, percebemos que se transformaram em outra. Os que ficam na frente, correm para o fundo assim que percebem nossa presença. Somos agredidos por objetos que do nada, caem na nossa cabeça quando abrimos as portas do armário. Encontramos coisas repetidas e outras que nem lembrávamos mais que tínhamos comprado. Tudo é pra ontem, o entendimento é confuso, o relógio está sempre gritando que estamos atrasados e a ansiedade e a irritabilidade são as nossas melhores amigas. Após interagir com esse mundo, voltamos completamente sem energia. O resultado? Até as situações mais simples acabam virando um caos.


Viver entre esses dois mundos é muito estressante, mas a gente acaba se acostumando com o caos, com os comentários negativos dos familiares e amigos e, o famoso " eu me acho na minha bagunça" vira o nosso melhor argumento. Quando bate a culpa e a vergonha, vamos até as lojas de utilidade domésticas, compramos um monte de caixa organizadoras e socamos tudo lá dentro achando que a partir daquele momento as coisas serão diferentes. Por alguns dias a interação com o mundo paralelo realmente fica mais calmo, depois o caos se instala novamente.


A mudança só vem mesmo quando acontece algo que realmente nos faz questionar o modo como estamos vivendo e lidando com a nossa organização interna e externa. No meu caso foi um exame de saúde. Me lembro como se fosse hoje o estresse que passei ao sair da clínica, dirigir até o meu prédio, passar a portaria, subir 4 andares de escada correndo, entrar no quarto, revirar toda aquela bagunça sem ter ideia de onde poderia estar a guia correta, chorar de desespero, encontrar a guia e voltar pra clínica correndo para conseguir cumprir o acordo com a recepcionista de manter o meu horário porque era um exame importante. Tudo isso em um tempo de 20 minutos.


Daquele dia em diante muita coisa mudou na minha vida. Entendi que muitos dos meus conflitos interno e externo eram influenciados pela minha desorganização e pela forma de me relacionar com os objetos. Encontrar soluções práticas e eficientes de organizar os armários tornou a minha vida menos conturbada, a interação com os meus pertences ficou fácil, o gasto de energia com o mundo paralelo desnecessário e os meus dias profissionais mais significativos, pois acabou virando a minha profissão.


Trabalhar como Personal Organizer e ajudar famílias a encontrar uma forma lógica de guardar seus objetos, me fez perceber que organizar fisicamente um espaço não se trata de dom e não é uma característica que faz parte da personalidade do indivíduo. É apenas uma habilidade que todas as pessoas que estão tendo problemas causados pela desorganização ou que desejam otimizar seus ambientes podem aprender e desenvolver. Um elo de apoio que transita e busca soluções para os conflitos materiais individuais e familiares. Alguns aprendem desde criança e outros quando já são adultos.