• Eliane Camargo

O processo que virou a minha profissão

Quando eu era adolescente e estava na fase de refletir sobre quais caminhos seguir na vida profissional, eu não imaginava que um dia iria trabalhar com organização física. Até aquele momento, as minhas dúvidas giravam em torno da área administrativa e da psicologia. Me sentia atraída e interessada por aprender sobre o comportamento humano, mas me sentia segura em saber que sempre haveria uma empresa precisando de alguém para trabalhar em seu departamento administrativo. Assim optei por entrar na faculdade e cursar Administração de Empresas.


Se em casa a organização física passava longe dos meus pertences, o mesmo não acontecia na vida profissional. Logo que iniciei meus estudos, comecei a trabalhar em uma empresa de cesta básica e ali tive os meus primeiros contatos com a organização. Pelo tempo que trabalhei nos departamentos de almoxarifado administrativo e financeiro, aprendi com minhas companheiras e amigas o quanto manter a ordem contribuía para o bom funcionamento de nossas atividades. No almoxarifado, guardar os materiais de forma lógica e setorizada, nos ajudava a encontrar de forma rápida e eficiente os itens que os funcionários estivessem nos solicitando, além de facilitar a identificação e a compra dos itens necessários para reabastecer o estoque. Já no financeiro, guardar e manter os documentos de forma organizada, era extremamente importante para que a empresa pudesse manter suas contas em dia e o bom relacionamento com seus fornecedores.


Em busca por novas oportunidades, comecei a estagiar no setor de compras de uma empresa de fabricação de bombas e válvulas. O trabalho principal era realizar compras dos materiais necessários para reabastecer o estoque de peças. Meu chefe era uma pessoa que procurava ao máximo otimizar o seu trabalho com a ajuda da organização e sempre me ensinava o quanto um processo desorganizado poderia afetar a produção e a empresa como um todo.


No final de 2012 e de volta ao departamento financeiro, mas dessa vez em um escritório de consultorias, eu vi toda a minha vida profissional e pessoal mudar. E advinha quem estava presente?! Ela mesma, a organização. Quando comecei a trabalhar nesse escritório, eu estava com dois projetos em minha vida. O planejamento do meu casamento e a busca pelo desenvolvimento profissional. E, para a minha sorte, conheci mulheres que usavam a habilidade da organização tanto na vida profissional, quanto na vida pessoal. Trabalhamos pouco tempo juntas, mas o tempo suficiente para que eu pudesse adquirir novos conhecimentos que me permitiram aprimorar e desenvolver a minha habilidade de organizar. Eu já assistia alguns programas de televisão sobre decoração e organização, mas foi através delas que conheci blogs de pessoas que usavam suas experiências e conhecimentos para ajudar e ensinar outras pessoas a organizarem seu tempo e espaço. Foi a primeira vez que vi profissionais de organização.


O tempo passou, consegui realizar o meu casamento de acordo com o planejado e me sentia cada vez mais satisfeita com a minha vida profissional. Tudo estava indo bem até o meio de 2014, quando tive que realizar um exame de saúde e ver o meu mundo virar de ponta de cabeça. Fazer uma biopsia, me deixou tão assustada com a finitude da vida e com tanto medo que eu pudesse ter o mesmo destino que minha mãe, que mesmo a médica me dizendo que eu poderia ficar tranquila porque não era nada grave, eu não conseguia mais olhar para a minha vida com os mesmos olhos.


Eu ia trabalhar e só conseguia passar o dia inteiro pensando o que eu estava fazendo ali, usando meu tempo para organizar papéis e pagar contas. Sem ajudar ninguém e sem contribuir de uma forma mais eficiente com o mundo, não me sentia mais feliz. Meu desempenho começou a cair e logo os conflitos profissionais começaram a surgir. Inicialmente eu até tentei conciliar o meu trabalho atual com o trabalho de assessorar uma amiga em seu planejamento do casamento, mas ambos necessitavam de tempo e dedicação exclusiva e acabou não dando certo. Em 2015, depois de alguns meses sem conseguir restabelecer o valor que eu via no meu trabalho antes do exame, decidi que seria melhor pedir a conta e repensar a minha vida.


Inicialmente eu ainda me sentia perdida, mas foi durante esse processo de autoconhecimento que finalmente a organização física teve um lugar em minha vida pessoal. Eu já havia identificado que muitos dos meus conflitos internos e externos eram influenciados pela minha desorganização e pela forma me relacionar com os objetos, então eu vi naquele momento, uma oportunidade de aproveitar o tempo disponível ao meu favor. Comecei a organizar a minha casa e aos poucos, fui tirando todo o excesso de objetos, deixando ir o que não fazia mais sentido ter e organizando de uma forma que eu pudesse manter a ordem após usá-los.


Após organizar a minha casa, comecei a observar que além do acolhimento e conexão que eu estava sentido com ela, eu também estava me sentindo mais leve, disposta e o estresse que eu costumava passar devido aos conflitos de desorganização eram cada vez menos frequentes. Antigamente eu pensava que a organização era necessária apenas na vida profissional e nos projetos pontuais. Agora eu via ela como uma habilidade indispensável na minha vida como um todo. Me sentia animada, mas ainda não fazia ideia do que fazer da minha vida profissional.


Com tempo livre e vontade de descobrir atividades que eu gostava de fazer, pensei que a decoração poderia ser um novo caminho, pintar paredes e transformar visualmente os ambientes me traziam alegria desde criança. Renovei a decoração dos quartos da minha tia e da minha sogra e como troquei alguns móveis, precisei organizar os armários para realocar os objetos. Para a minha surpresa o que mais me deu alegria ao acabar, não foram as novas cores nas paredes e sim o prazer de entrar nos ambientes e ver o espaço otimizado e organizado. Cada coisa tinha o seu lugar, havia aumentado o espaço para a circulação, a interação com o ambiente ficou fácil, agradável e ideias começaram a surgir.


Comecei a pensar na possibilidade de oferecer o serviço de organização física para outras mulheres, mas não tinha a menor ideia de como estruturar essa nova profissão. A luz veio quando, ao conversar com a minha professora de inglês da época, ela me sugeriu procurar por cursos profissionalizantes e profissionais que estivessem trabalhando com isso. Assim eu fiz e ao realizar o curso, senti que finalmente estava diante de algo que poderia ajudar outras pessoas e ao mesmo tempo me dar o sentimento de valorização que eu buscava para a minha vida profissional. Me formei em Personal Organizei, com a ajuda de amigas realizei alguns laboratórios, comecei a atender famílias e não parei mais. Desde 2015 a minha vida profissional tem um novo significado: Ajudar mulheres e famílias que estão passando por conflitos que a desorganização provoca no relacionamento pessoal e familiar à encontrar soluções de organização física que melhor contribuem para a valorização do convívio diário.