• Eliane Camargo

Organizar, conviver e se relacionar

Logo após a minha formação em Personal Organizer comecei a oferecer alguns laboratórios com a ideia de colocar em prática todo o conhecimento adquirido na minha formação. Cada um deles me trouxe experiências riquíssimas. Inclusive foi através desses laboratórios que tive a minha primeira cliente pagante e a percepção de qual caminho não me alimentava a alma. Me lembro do orgulho que senti ao organizar um closet do qual havia tantas roupas, sapatos, bolsas, livros e objetos que em um primeiro momento mal dava para entrar e, após a organização tudo era facilmente encontrado. Assim, como também me lembro o sentimento confuso de sentir alegria por ganhar o meu primeiro dinheiro como Personal Organizer e ao mesmo tempo ficar triste por ver que uma peça de roupa da qual eu havia organizado com tanto carinho em um dia, no outro estava “jogado” novamente na gaveta. Após entregar o projeto comecei a me questionar se apenas encontrar formas lógicas de guardar objetos era a ajuda que eu estava em busca de oferecer para as outras pessoas.


O projeto seguinte começou a me dar algumas pistas do que mais tarde viria a se tornar a abordagem principal do meu trabalho. Durante a conversa para entender melhor as dificuldades e necessidades da pessoa ao usar aquele ambiente, notei que de alguma forma a desorganização contribuía e influenciava os conflitos familiares. E ao buscar por um projeto de organização, a pessoa não queria uma nova forma de guardar seus objetos, ela queria apenas uma forma de ter paz em uma relação já bastante tumultuada. Ao final do projeto, sua felicidade foi saber que dali em diante não precisaria mais entrar no quarto do irmão para pegar suas coisas. Tudo o que ela precisava, agora estava nos seus armários. Desse projeto em diante, eu comecei a testar outras formas de oferecer o meu trabalho. Fiz organização para viúvos, ateliê, recém nascido, mudança de casa, recém casados e pequenas empreendedoras. Sempre com o intuito de ajudar pessoas que de alguma forma, estavam tendo seus dias comprometidos pela desorganização.


Com o tempo eu passei a observar que nas conversas que eu tinha com as clientes, sempre havia uma queixa sobre como a desorganização do ambiente afetava a convivência e o relacionamento com os integrantes da família. Essa percepção ficou mais clara, quando uma cliente buscou pelo meu trabalho porque não sabia mais o que fazer a respeito do conflito diário entre sua mãe e seu marido. Ele adorava tomar café ao longo do dia e sempre se esquecia de guardar o pote de café no armário, que era o lugar onde sua mãe gostaria que fosse guardado, pois para ela, ver o pote em cima da pia, dava a sensação que a cozinha não estava em ordem. Nesse projeto, além de organizar os armários, criei um “cantinho do café”, de modo que o marido pudesse ter em um único lugar todos os itens necessários para fazer e tomar o seu café, sem se preocupar em lembrar de guardá-los no armário. E sua mãe ao entrar na cozinha, não teria mais a sensação de desordem que tanto a incomodava. O que antes era um conflito diário, foi pacificado através da organização física. A entrega desse projeto me ajudou muito a entender que para mim esse era o valor que há tempos eu estava buscando na organização física, ajudar as pessoas a encontrar soluções para pacificar os conflitos familiares provocados pela desorganização. No entanto, ainda sentia que faltava algo.


A resposta veio quando, novamente durante uma visita técnica, notei que a fala da cliente era triste e desmotivada. No passado sua casa vivia em ordem, porém já havia um bom tempo que tinha se mudado com sua família para o novo apartamento, mas estava passando por um período difícil e não sentia vontade de organizar sua casa. Internamente se culpava por não ter forças e acabava indo às compras como uma forma de tentar se animar. Ao chegar em casa e se deparar com a desorganização, sentia mais culpa e com raiva jogava suas sacolas cheias de coisas dentro dos armários. E ao ter que abrir os armários para interagir com os objetos, novamente se sentia culpada por ver as sacolas cheias e mais coisas desorganizadas. O meu trabalho como Personal Organizer certamente iria auxiliá-la a se sentir novamente conectada com sua casa, mas não me pareceu ser o tipo de ajuda profissional suficiente para o seu caso. O que ela precisava, era que enquanto o exterior estivesse sendo colocado em ordem, alguém pudesse ajudá-la a entender o seu interior. Com esse projeto nasceu a minha parceria com os profissionais da saúde mental.


Além de ajudar a moldar a abordagem do meu trabalho, passar por todos esses caminhos e lares, me levou a olhar com mais carinho para a minha própria história de vida. No passado eu era extremamente desorganizada, vivi vários conflitos internos e familiares por não saber a melhor forma de organizar e facilitar a minha interação com os objetos e, aprender a organizar fisicamente o meu espaço foi o que me ajudou e me ajuda até hoje a ter uma relação mais saudável com os meus pertences, com a minha casa e principalmente com o meu marido, afinal, assim como eu tenho o meu próprio modo de interagir com um ambiente, ele também tem o dele. E é exatamente a somatória de tudo isso que me conecta com a vontade de usar a organização física para criar soluções que ajudem a pacificar a convivência diária em um lar. Pois uma casa é muito mais que os objetos que estão contidos nela. É a somatória e o reflexo das histórias de vida dos moradores, da forma como cada uma interage com os ambientes e até mesmo o momento pelo qual suas vidas estão passando. Seu maior valor está na qualidade dos relacionamentos estabelecidos nela. E que infelizmente, muitas vezes acaba sendo prejudicado pela desorganização física, começando com pequenos conflitos até tomarem proporções tão grandes que chega ao ponto de afetar negativamente essas relações.


Hoje o meu trabalho como Personal Organizer não é mais direcionado para as pessoas que buscam apenas formas lógicas de organizar seus objetos. A abordagem do meu trabalho é direcionada para os conflitos que a desorganização provoca no relacionamentos pessoal e, ou, familiar e focado nas soluções de organização física que melhor contribuem para a valorização do convívio diário. Essa é a maior contribuição da organização física em um lar.